RankingEscolas · Maio de 2025
Poucas reformas educacionais brasileiras geraram tanta controvérsia quanto o Novo Ensino Médio. Aprovado em 2017, implementado gradualmente entre 2022 e 2023, suspenso e revisado em 2023-2024, ele deixou uma geração de estudantes no meio de uma transição nunca concluída.
O debate público foi dominado por argumentos ideológicos em ambos os lados. O que os dados do IDEB podem dizer — e o que eles não podem dizer — sobre esse período é o que este artigo tenta esclarecer.
A Lei 13.415/2017 alterou a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação) e introduziu quatro mudanças principais no ensino médio público e privado:
Ampliação da carga horária
De 2.400 horas totais para 3.000 horas ao longo dos três anos — um aumento de 25%. O prazo para implementação foi sendo prorrogado sucessivamente.
Itinerários formativos
Além de uma Base Nacional Comum Curricular (BNCC) obrigatória, o aluno escolheria um 'itinerário' de aprofundamento: linguagens e suas tecnologias, matemática e suas tecnologias, ciências da natureza e suas tecnologias, ciências humanas e sociais aplicadas, ou formação técnica e profissional.
Redução das disciplinas obrigatórias
Com a flexibilização, apenas português, matemática e inglês passaram a ser obrigatórios nos três anos. Filosofia, sociologia, artes e educação física ficaram relegadas ao mínimo da BNCC — o que gerou críticas de que a formação geral dos alunos seria prejudicada.
Possibilidade de ensino técnico integrado
O itinerário técnico permitia que o ensino médio fosse integrado a uma habilitação técnica profissional, potencialmente substituindo parte dos conteúdos gerais.
As críticas vinham de perfis diferentes e por razões distintas:
Críticas pedagógicas
Críticas de implementação
Os defensores da reforma argumentavam que o currículo anterior era excessivamente rígido, que o ensino técnico integrado aumentaria a empregabilidade e que a flexibilidade beneficiaria alunos com diferentes vocações. Na prática, a implementação caótica dificultou qualquer avaliação justa da proposta original.
Em junho de 2023, o governo federal suspendeu a implementação do Novo Ensino Médio e abriu um processo de revisão que durou cerca de um ano. A nova versão, aprovada em 2024, manteve alguns elementos e reverteu outros:
| Aspecto | Novo EM (2017) | Revisão (2024) |
|---|---|---|
| Carga horária | 3.000 horas | 3.000 horas (mantido) |
| Itinerários | 5 opções amplas | Restritos e mais regulados |
| Português e Matemática | Obrigatórios nos 3 anos | Obrigatórios nos 3 anos (mantido) |
| Filosofia e Sociologia | Apenas na BNCC mínima | Reintroduzidas como obrigatórias |
| Formação técnica | Itinerário completo possível | Limitada a 20% do currículo |
O IDEB do Ensino Médio em 2023 foi de 4,3 — abaixo da meta de 5,2 estabelecida pelo MEC. Mas atribuir esse número ao Novo Ensino Médio seria uma simplificação:
A pandemia distorce a leitura: Os dados de 2021 e 2023 foram colhidos durante e logo após o maior choque do sistema educacional em décadas. Separar o efeito da pandemia do efeito da reforma é metodologicamente complexo.
O Ensino Médio público sempre foi a etapa mais fraca: O IDEB do EM já estava abaixo das metas desde 2015. A reforma não criou o problema — e sua suspensão também não o resolveu.
A implementação foi incompleta: Como a reforma nunca foi completamente implementada — com itinerários funcionando em poucos estados — não é possível avaliar seus efeitos reais.
O IDEB 2025 será o primeiro teste real: Os dados do próximo ciclo, com divulgação prevista para 2026, serão os primeiros coletados após a revisão. Só então haverá base empírica para julgar qualquer mudança.
O que foi o Novo Ensino Médio?
O Novo Ensino Médio foi uma reforma implementada pela Lei 13.415/2017, no governo Temer. A principal mudança foi a flexibilização do currículo: além da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), os alunos deveriam escolher um 'itinerário formativo' (área de aprofundamento) como ciências da natureza, ciências humanas, linguagens, matemática ou formação técnica. A carga horária foi ampliada de 2.400 para 3.000 horas.
Por que o Novo Ensino Médio foi polêmico?
As críticas vinham de vários lados: professores e pesquisadores apontavam que a reforma reduzia componentes obrigatórios como filosofia, sociologia, artes e educação física; o sistema de itinerários dependia de estrutura que a maioria das escolas públicas não tinha; e havia suspeita de que a ênfase em formação técnica precoce seria prejudicial à formação geral dos alunos.
O que mudou com a revisão do Novo Ensino Médio em 2023?
Em 2023, o governo Lula suspendeu a implementação do Novo Ensino Médio e abriu um processo de revisão. Em 2024, foi aprovada uma nova versão que mantém a ampliação da carga horária mas reintroduz disciplinas obrigatórias e restringe os itinerários formativos. A implementação está sendo feita gradualmente.
O IDEB do Ensino Médio caiu por causa do Novo Ensino Médio?
A relação não é direta. O IDEB do Ensino Médio já vinha em queda antes da reforma e foi fortemente afetado pela pandemia de 2020-2021. O que os dados mostram é que o Ensino Médio é historicamente a etapa mais fraca do sistema brasileiro — independentemente da reforma. A avaliação completa do impacto do Novo Ensino Médio no IDEB só será possível com os dados de 2025.