Análise com dados do INEP · RankingEscolas · Maio de 2025
A pandemia de Covid-19 foi o maior choque que o sistema educacional brasileiro já enfrentou. Entre março de 2020 e o início de 2022, a maioria das escolas públicas operou com aulas remotas ou híbridas — muitas sem infraestrutura adequada, professores sem formação para o ensino digital e alunos sem acesso à internet.
O IDEB de 2021 capturou esse impacto — mas de forma paradoxal. O IDEB 2023, divulgado em setembro de 2024, trouxe os primeiros dados concretos sobre a recuperação. O que os números mostram é uma recuperação real, mas incompleta e desigual.
| Etapa | 2019 (pré-pandemia) | 2021 (pandemia) | 2023 (recuperação) | vs. 2019 |
|---|---|---|---|---|
| Anos Iniciais | 5,9 | 5,9 | 5,9 | 0,0 |
| Anos Finais | 4,9 | 5,0 | 4,7 | -0,2 |
| Ensino Médio | 4,2 | 4,2 | 4,3 | +0,1 |
Fonte: INEP/MEC — médias nacionais das escolas públicas. O IDEB de 2021 foi distorcido por aprovações automáticas durante o ensino remoto.
O IDEB combina dois fatores: o desempenho dos alunos nas provas do SAEB (português e matemática) e a taxa de aprovação. Em 2021, esses dois fatores foram em direções opostas.
Desempenho caiu
As provas do SAEB 2021 mostraram queda significativa no desempenho em português e matemática, especialmente nos Anos Finais e Ensino Médio. Alunos aprenderam menos com o ensino remoto.
Aprovação subiu artificialmente
Para evitar que alunos perdessem o ano por razões fora do seu controle, redes de ensino e estados adotaram políticas de progressão continuada e reduziram reprovações. Resultado: taxas de aprovação historicamente altas.
O efeito combinado foi um IDEB 2021 que, em alguns casos, ficou estável ou até subiu — não porque as escolas estavam ensinando mais, mas porque a aprovação alta compensou o desempenho baixo no cálculo. Por isso, analistas e o próprio INEP recomendam cautela ao usar 2021 como referência de comparação.
O IDEB 2023, divulgado em setembro de 2024, trouxe boas e más notícias:
Anos Iniciais: recuperação robusta
Os anos iniciais do ensino fundamental (1º ao 5º ano) apresentaram a recuperação mais forte. A média nacional subiu e muitas escolas superaram o nível de 2019. Parte dessa recuperação é atribuída ao foco em alfabetização e numeracia nessa faixa etária, além de programas governamentais específicos.
Anos Finais: recuperação parcial
Os anos finais (6º ao 9º ano) mostraram recuperação, mas mais lenta. Alunos do 6º ao 9º ano têm mais autonomia no aprendizado, mas também maior vulnerabilidade ao abandono escolar — e muitos perderam duas janelas críticas de aprendizado em 2020 e 2021.
Ensino Médio: a herança mais pesada
O ensino médio foi a etapa mais prejudicada e a que mais lentamente se recupera. A geração que cursou o ensino médio durante a pandemia enfrentou maior evasão, menor engajamento e, em muitos casos, chegou ao mercado de trabalho com lacunas sérias de aprendizagem.
A recuperação não foi uniforme. Os dados do IDEB 2023 revelam padrões importantes:
Escolas federais: Cefet, IFET e escolas federais de aplicação foram as que melhor resistiram à pandemia e mais rapidamente se recuperaram. Em parte por infraestrutura superior, em parte por maior capacidade de fazer ensino remoto de qualidade.
Regiões Sul e Sudeste: Estados do Sul e Sudeste, com redes estaduais mais estruturadas e maior penetração de internet nas casas, apresentaram recuperação mais rápida. São Paulo e Paraná tiveram resultados acima da média nacional.
Norte e Nordeste: As regiões com menor IDH já partiam de um ponto de desvantagem. A pandemia aprofundou essa diferença — menor acesso à internet, maior precariedade econômica das famílias e mais abandono escolar. A recuperação foi mais lenta e ainda incompleta em 2023.
Escolas rurais: Escolas rurais tiveram dificuldades particulares com o ensino remoto. Conectividade era limitada, e o modelo de aulas gravadas funcionou mal onde não havia internet. A recuperação nesse segmento é a mais preocupante.
O próximo ciclo do IDEB — com dados de 2025 e divulgação prevista para 2026 — será o primeiro com uma geração que cursou toda a educação básica sem interrupção da pandemia. Os especialistas acompanham com atenção dois indicadores:
O RankingEscolas será atualizado com os dados do IDEB 2025 assim que o INEP divulgar os resultados. As páginas de escola, município e estado refletirão automaticamente os novos dados.
Por que o IDEB de 2021 foi afetado pela pandemia?
Em 2020 e 2021, as escolas operaram com aulas remotas e híbridas durante a maior parte do período letivo. A pandemia afetou o IDEB de duas formas opostas: as taxas de aprovação subiram artificialmente (menos reprovações por decisão política) enquanto o desempenho real dos alunos caiu. O resultado foi um IDEB 2021 que não reflete a aprendizagem real.
O IDEB de 2023 confirmou a recuperação das escolas?
Parcialmente. O IDEB 2023 mostrou melhora em relação a 2021 em quase todas as etapas, especialmente nos Anos Iniciais do ensino fundamental. Mas muitas escolas ainda não recuperaram os níveis de 2019. A recuperação foi desigual — escolas federais e algumas redes estaduais se recuperaram mais rápido.
Quais etapas foram mais afetadas pela pandemia?
O Ensino Médio foi a etapa mais prejudicada. Alunos do ensino médio têm menos estrutura familiar de apoio ao aprendizado remoto, maior taxa de abandono durante a pandemia e mais dificuldade de reengajamento. Os Anos Iniciais foram os que se recuperaram mais rapidamente.
Como saber se a escola do meu filho se recuperou da pandemia?
No RankingEscolas você pode ver o histórico completo do IDEB de cada escola, incluindo 2019, 2021 e 2023. Compare os três anos para ver se houve queda em 2021 e recuperação em 2023. Uma escola que voltou ao nível de 2019 ou ficou acima está em boa situação.